Roboética e inteligência artificial: a arte de sair do nada para ir a lugar algum

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Por Bruno Carneiro de Castro

A ética dos robôs, ou roboética, é forte candidata a se tornar um dos modismos típicos do início do século 21. Ela nasce de um problema que não existe, e pretende desaguar em outros problemas que jamais existirão – ou que, na pior das hipóteses, estão sendo examinados por um viés equivocado. Explicaremos o porquê.

De início, é preciso desmontar uma falácia que insiste em acompanhar o debate da ética dos robôs, que atende pelo nome de “inteligência artificial”. Essa combinação de palavras parece ter sabor agradável para Hollywood, e que bom seria se ela se mantivesse restrita ao campo da ficção. Mas, para desespero dos cientistas sérios, há muita gente na academia e no mercado insistindo que, de fato, as máquinas – especialmente os robôs – já conseguem demonstrar rudimentos de raciocínio com a tecnologia de hoje e, futuramente, dominarão o pensar tal qual os seres humanos.

Se isso fosse verdade, estaríamos caminhando para o fim do nosso monopólio sobre a inteligência. E, sendo improvável que o cérebro limitado de homens e mulheres pudesse vencer a concorrência com as “máquinas pensantes”, haveria risco de extinção da espécie humana.

Tudo isso seria muito preocupante, se fosse minimamente factível. Mas não é. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento em lógica de programação descobre, pela via prática, que uma máquina, seja ela um computador, smartphone ou robô, se limita a responder a comandos previamente determinados. Se alguma ação realizada por esses dispositivos se assemelha a uma decisão racional, isso se deve a uma interpretação antropomórfica de um observador tendencioso.

É o que ocorre quando, ao receber o resultado de um site de buscas, se diz: “Esse site encontrou o que eu estava procurando”. Isso é uma descrição bastante imprecisa do que, de fato, o mecanismo de buscas realizou. Ele simplesmente fez um exercício lógico de comparação para separar e exibir, dentro de uma lista com milhões de entradas, algumas poucas que têm mais semelhança com o termo de busca inserido. Entre esse processo absolutamente maquinal e uma elaboração filosófica de alguém que encontrou uma solução para um problema, há uma distância considerável.

Isso posto, voltemos à roboética, cujo pressuposto é que robôs podem: a) tomar decisões eticamente questionáveis; ou b) servir de instrumento para ações humanas cujos resultados firam valores éticos e morais.

Como vimos, não se pode levar a sério o item a), pois nenhuma ação tomada por máquinas pode ser considerada uma decisão realmente autônoma e racional. Sobra, então, o item b), que não tem profundidade suficiente para embasar um debate relevante.

Para explicar essa falta de profundidade, valhamo-nos de um exemplo cômico: a hipotética “facoética”. Essa ciência consistiria no debate sobre a implicação do uso das facas por humanos, levando em consideração questionamentos intrigantes, como: “Se um açougueiro se ferir acidentalmente ao cortar uma peça de carne, o fabricante da faca pode ser responsabilizado?”.

A “facoética” é derrotada por um contra-argumento simples: por ser um objeto totalmente dependente da intervenção humana para gerar qualquer tipo de resultado, seja bom ou ruim, a faca não requer um debate ético intrínseco. E, ainda que um erro do fabricante da faca tenha levado ao acidente, os códigos legais e de ética da indústria já são suficientemente desenvolvidos para lidarem com a questão.

Sempre que se fala sobre ações deliberadas e suas consequências, o foco deve estar em quem toma a decisão. Assim, não há que se erguer todo um emaranhado de teorias para embasar o que robôs devem ou não fazer, mas sim investir na pesquisa a respeito dos vícios e virtudes que, motivando para o bem ou para o mal a ação humana, demandarão objetos inanimados para se converter em atos tangíveis. Que esses objetos sejam sempre considerados como instrumentos, que é aquilo que de fato são, e jamais um fim em si mesmos.

 

As visões e opiniões expressadas nos artigos são as dos autores e não refletem necessariamente a Política oficial ou posição do grupo AdmEthics