O que seria um salário ético?

postado em: Articles, Opinion | 0

Por Felipe Flôres Martins

A UBER, empresa de transporte por aplicativo está prevendo faturar muito com seu IPO (Initial Public Offering – sigla em inglês para “oferta pública inicial”, ou seja, quando empresas abrem o capital). A expectativa é que consiga um IPO entre 100 e 120 bilhões de dólares. Uma curiosidade é que em um prospecto divulgado pela empresa, a UBER reportou cerca de 6,8 bilhões em prejuízo segundo a revista Exame[i], números maiores que o as Amazon no início de sua trajetória.

Algo que não é tão novo para nós são os montantes salariais que executivos de grandes empresas como a UBER recebem. Para se ter ideia apenas do Brasil, segundo a revista Forbes[ii], em 2017 a Vale pagou a um executivo uma média mensal de cerca de 5 milhões de reais. Uma remuneração considerável, não? O Itaú, por exemplo, pagou cerca de 3,5 milhões mensais a um de seus executivos, um valor anual de R$ 40.918.000,00. Além das empresas mencionadas, B3, GPA, Bradesco, OI, Braskem, Suzano Papel e Celulose, Ultrapar e Fibria Celulose estão entre as 10 empresas que mais pagaram aos seus executivos em 2017. São valores extraordinários e fora da realidade da maioria da população mundial.

Voltando ao caso da UBER, seu presidente atual, Dara Khosrowshahi, pode estar contando os minutos para o IPO. Isto, porque caso o IPO seja bem-sucedido ele embolsará USD 100.000.000,00. Foi isso mesmo que você leu, são 100 milhões de dólares já definidos em contrato antes mesmo da abertura do capital.

Diante dessas incríveis cifras, fazemos um questionamento: o que seria um salário ético?

Aristóteles[iii], filósofo clássico de importância incontestável tratou a respeito de dinheiro. É possível dizer que a busca de dinheiro por pura especulação ou a busca de dinheiro de forma desenfreada é considerado por Aristóteles como um abuso do uso de bens materiais. A ideia geral é que devemos buscar os bens internos, ou seja, algo como a felicidade, o bem comum, uma vida boa. Desta forma, os bens materiais como o dinheiro, ou aqueles intimamente ligados ao material, como poder e status devem ser apenas considerados como um meio para se alcançar aquilo que se busca, como por exemplo, um fim superior.

“Um negócio que não faz nada além de dinheiro é um negócio ruim” – Henry Ford

Em Aristóteles, é possível dividir a economia em duas questões: a natural e a não natural. Quando falamos na questão natural, há uma limitação necessária de recursos e o objetivo final é um fim superior, ou seja, é a possibilidade de usufruir e desfrutar da riqueza e não apenas colocar o foco na usura. A forma não natural para Aristóteles seria aquela em que a quantidade de recursos não tem limites, o desejo é imoderado, é um obstáculo para a felicidade e corrompe o natural em razão do excesso.

Como então pensaríamos acerca de um limite nos ganhos? Na visão aristotélica, a virtude pode ajudar a pensar a respeito. Ter autocontrole e saber dizer não pode ser um começo. A virtude da prudência também pode ajudar a seguir uma boa razão. Num mesmo sentido, a virtude da coragem torna-se essencial ao passo que exercitar a coragem nas atividades profissionais é importante.

MacIntyre[iv], filósofo contemporâneo importante para a ética das virtudes, propõe dois conceitos importantes, os quais são os bens externos (goods of effectiveness) e os bens internos (goods of excellence). Bens externos ou bens de eficácia são aqueles perseguidos para o benefício de outro e estão fora do agente, um exemplo disto é o dinheiro. Já os bens internos ou bens de excelência são escolhidos em si mesmos, alcançados em atividades cujo fim ou propósito é a sua própria realização da melhor maneira possível. São bens internos às práticas, como florescimento, relacionamentos amorosos, conhecimento e virtudes.

Pensando desta forma, é possível verificar se poderíamos colocar um limite nos ganhos financeiros. O montante de recursos leva aos bens internos ou ele se torna um empecilho para a conquista da felicidade, por exemplo? Tanto Aristóteles quanto MacIntyre veem importância nos negócios, mas o que os autores chamam atenção é se de fato as atividades, sejam elas quais forem, levam a um fim superior ou são apenas relacionados ao lucro e consequentemente usura, ou seja, com o fim em si mesmo. A usura, por si só foi muito debatida e condenada durante a idade média com Tomás de Aquino. Podemos dizer que usura é a cobrança excessiva de juros ou mesmo a aquisição desenfreada de recursos financeiros no mercado. Geralmente, esses executivos angariam esses montantes por meio de negociações que as empresas fazer no mercado. Na visão de Aristóteles, assim como na visão de MacIntyre, toda essa quantia ora citada provavelmente não seria considerada algo como um meio para a aquisição de um fim superior, como o florescimento humano (eudaimonia).

Ferrero e Sison[v], dois autores também de grande importância para o contexto atual da ética, descrevem que, lucros e produtividade são indicadores razoáveis da solidez de um investimento, mas eles não devem ser o único e principal objetivo do financiador. Requisitos éticos devem ser satisfeitos acima de tudo. Bens e serviços devem ser “realmente úteis”, não apenas porque satisfazem as preferências do consumidor, mas também porque salvaguardam e promovem a dignidade humana, o bem comum e outros princípios sociais fundamentais.

A busca por lucro das empresas ou mesmo a maximização da riqueza e a consequente distribuição dos tão sonhados bônus milionários aos seus melhores executivos não é questão fechada entre alguns especialistas em ética. Obviamente a questão é mais complexa do que exposta aqui, mas a minha ideia era trazer alguns levantamentos, assim como alguns conceitos e perspectivas a respeito do tema.

MacIntyre afirma que “nenhuma qualidade pode ser considerada uma virtude, exceto no que diz respeito a ser tal que permita a realização de três tipos distintos de bens: aqueles internos às práticas, aqueles que são os bens de uma vida individual e aqueles que são os bens da comunidade”

E você, o que acha de receber 100 milhões de dólares por seus serviços? Seria esse montante salarial ético? Se existe um limite, qual seria?

Referências:

[i] https://exame.abril.com.br/negocios/ceo-da-uber-pode-ganhar-100-milhoes-com-ipo-veja-quem-mais-fatura/

[ii] https://forbes.uol.com.br/listas/2018/06/conheca-o-salario-dos-altos-executivos-de-18-empresas/#foto10

[iii] ARISTOTLE. Translated by: ROSS, W. D. Revised with an Introduction and Notes by: BROWN, L. The Nicomachean ethics. Oxford: Oxford University Press. 2009.

[iv] MACINTYRE A. After virtue, 3rd ed. Duckworth, London, (2007 [1981]).

[v] FERRERO, I.; SISON, A. J. G. Aristotle and MacIntyre on the virtues in finance. In A. J. G. Sison (Ed.), Handbook of virtue ethics in business and management (Vol. 1–2, pp. 1153– 1162). Dordrecht: Springer, 2017.